Plantações no topo de arranha-céus


“Se a população mundial continuar a crescer, não seria preciso desmatar ainda maisflorestas para produzir comida suficiente para todos?” A questão foi levantada no livro The Vertical Farm – Feeding the World in the 21st Century (Thomas Dunne Books, 2010), do microbiologista Americano Dickson Despommier, professor da Universidade de Columbia, em Nova York. Com cada vez menos espaço disponível nas cidades – a estimativa é que até 2050 a população mundial ultrapasse os 9 bilhões –, a busca por soluções alternativas é natural e necessária.

Nesse contexto, ganha força o conceito de fazendas urbanas – grandes plantações de hortaliças, frutas, legumes e até a prática pecuária inseridas no ambiente das cidades. Em Nova York, a parceria entre pais, educadores e a New York Sun Works, organização que constrói laboratórios de ciências em colégios urbanos, resultou no primeiro projeto de estufa orgânica em escolas públicas, denominado The Greenhouse Project, na P.S. 333 Manhattan School for Children. A cobertura do prédio ganhou um ambiente com 130 m², onde alunos do ensino médio e fundamental aprendem, entre outros temas, sobre a captação de água pluvial para a estufa hidropônica e a criação de tilápias em tanques. “Precisávamos convencer os órgãos municipais de que era uma ideia inovadora e sustentável”, lembra Manuela Zamora, mãe de estudante e cofundadora da ação.

  (Foto: Toshimichi Sakaki )Fachada da sede do Grupo Pasona, em Tóquio, cujo visual é transformado pelas plantas e flores de acordo com a época do ano

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No centro comercial de Tóquio, a sede do Grupo Pasona, de recursos humanos, é outro exemplo. O projeto assinado pelo estúdio japonês Kono Designs converteu um edifício com mais de 50 anos em um híbrido de arquitetura e agricultura: dos quase 20 mil m², 3.994 m² são só de área verde. A proposta começa na fachada, tomada por laranjeiras e flores sazonais. Nos interiores, o lobby abriga o arrozal e o cultivo de brócolis, enquanto escritórios, salas de reuniões, auditório e cafeteria, ao longo dos nove andares, ficam em meio a hortas com mais de 200 espécies de frutas, verduras e grãos. Colhidas diariamente pelos próprios funcionários, as plantações – hidropônicas ou não – contam com iluminação especial de LEDs, sistema automático de irrigação e ventilação planejada. “Tivemos de controlar o nosso clima interno para maximizar o crescimento das plantas e manter o conforto humano”, diz Yoshimi Kono, arquiteto responsável.

O Brasil começa a dar seus passos nesse sentido. No bairro de Pinheiros, na capital paulista, o telhado do Shopping Eldorado abriga, desde 2012 2.500 m² de uma plantação de legumes, verduras e ervas aromáticas, que contribuem na alimentação de seus empregados. A compostagem é feita com resíduos orgânicos oriundos da praça de alimentação do local, que gera 400 kg de lixo todos os dias. “Também criamos mão de obra especializada, pois contratamos auxiliares de compostagem”, conta Márcio Glasberg, gerente de operações. Diante de tais ações, fica fácil imaginar um cenário urbano pontilhado por hortas capazes de enriquecer a paisagem, além de manter os alimentos ao alcance das mãos.

Propostas de fazendas verticais brotam de arquitetos em vários países. O trabalho de graduação do americano Blake Kurasek foi o protótipo de uma torre no lago Michigan, intitulada The Living Skyscraper, uma combinação de apartamentos e fazendas hidropônicas em 120 andares. A empresa sueca Plantagon, especializada na criação de estufas urbanas inovadoras, pretende construir, neste ano, o Vertical Greenhouse, em Linköping, na Suécia. O edifício de vidro com 17 andares será dedicado ao cultivo de alimentos que, por meio de um sistema de esteiras, terão a exposição ao sol revezada. Já o escritório francês SOA idealizou um prédio destinado ao cultivo de bananas em plena avenida Champs-Elysées, emParis: Urbanana adota janelas de vidro e estética minimalista.


* Matéria publicada em Casa Vogue #342 (assinantes têm acesso à edição digital da revista)

  (Foto: Luca Vignelli )O espaço do escritório do Grupo Pasona é camuflado pelo cultivo de tomates

 

  (Foto: divulgação)Em caixas e baldes plásticos, a horta mantida no teto do Shopping Eldorado, em São Paulo, fornece alimento para os funcionários e diminui a quantidade de lixo enviada aos aterros sanitários, já que boa parte é transformada em adubo orgânico

 

  (Foto: divulgação)Torre no lago Michigan, intitulada The Living Skyscraper

 

  (Foto: divulgação)Vertical Greenhouse

 

  (Foto: divulgação)